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1. Convicção e crença firme e incondicional, alheia a argumentos da razão

No primeiro dia dessa viagem, exatamente no dia 23 de Janeiro, eu escrevi um texto que se chama ” Sobre a Felicidade e Viajar“. Hoje, depois de mais de quatro meses de viagem , eu posso dizer que aprendi muitas coisas, e, uma delas, é sobre a felicidade e a fé. Fé. essa palavra tão pequena, mas tão forte e difícil de ser exercitada completamente. E eu não falo somente da fé em um Deus específico, que nós, adeptos ao cristianismo temos.  Eu falo da força que você tem dentro que é capaz de mover tudo e ao mesmo tempo te equilibrar quando nada dá certo (minha definição particular, independente de qualquer religião).

No budismo  por exemplo, todos os fenômenos são resultado da lei da casualidade. Se a causa muda, também há uma mudança correspondente no efeito; se a causa desaparece, o efeito naturalmente desaparece. Portanto, nenhum fenômeno tem uma entidade própria (como nós temos Ele) e a causa e o efeito não são divisíveis, e aí entramos também na concepção de karma. Não quero tocar em um tema delicado como a religião, mas sem dúvidas o budismo e o hinduismo em alguns países influi  no dia a dia dos locais; conversando com um colega antropólogo, nos perguntávamos a razão de países pobres no Sudeste Asiático, como a Tailândia, serem mais seguros que o Brasil e chegamos à conclusão (que pode ser precipitada) que a filosofia budista (ela, novamente), pode ter realmente um efeito nas taxas de violência em uma comunidade ou até mesmo em um país. 

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O poder da fé e da crença foi visível para mim na Índia: eu estava em uma loja em Pushkar, com uma colega espanhola que acabava de conhecer. Ela tinha escolhido um brinco para comprar e na hora de pagar, o brinco desapareceu. Ela ficou com muita vergonha, um pouco desorientada e começamos a procurá-lo enquanto ela dizia “eu juro que não peguei, eu juro”. O dono da loja, muito tranquilo, olhou para ela e disse: “tranquila, eu sei que você não roubou, o brinco está por aí. E mesmo se tivesse roubado, existe algo mais forte que todos nós, chamado karma”; assim, com toda a tranquilidade do mundo.

Em outra loja, em Ubud, Bali, havia um cartaz que dizia “pague pelo o que você comprar, o karma existe”. Eu passei muitas vezes por aquele cartaz e sorri para mim mesma pensando que essas pessoas tão nobres e sábias que acreditam e praticam as leis da causa e efeito e tem fé dentro de si sofrem menos.

Para mim, antes mesmo de viajar ou aprender um pouquinho sobre a filosofia budista, fé era saber que as coisas acontecem quando têm que acontecer e, diferente do que eu pensava antes, você nem sempre vai entender a razão depois. A fé e o karma são conceitos que podem nos guiar a ter uma vida muito mais serena e tranquila. Eu sou ansiosa por natureza e cada vez mais tenho tentando me controlar,  educar os meus pensamentos, respirar e realmente ter a sabedoria e a paz de saber que tudo acontece por algum motivo e tentar não me questionar muito sobre a razão das coisas, se não, entro num loop infinito. Estou longe, mas longe mesmo de conseguir exercer todos esses pensamentos com perfeição,  mas senti-los com frequência é um bom primeiro passo.

Falando no poder da fé, nunca senti tanta energia e emoção ao ver o nascer do sol nas margens do Rio Ganges, em Varanassi, Índia. A fé chegava a ser tangível. Usarei esse trecho do livro “Guerras pela Água — Privatização, Poluição e Lucro” para explicar a relação do povo com o rio sagarado:

“O Ganges representa uma ponte sagrada para o divino. O Ganges é uma tirtha, um lugar de travessia de um ponto para outro. O papel do Ganges como mediador entre este mundo material e o plano divino toma forma entre os hindus nos rituais dos funerais.  Como o Ganges, o Yamuna, o Kaveri, o Narmada e o Brahmaputra são todos rios sagrados, e são adorados como deusas. Acredita-se que eles purificam e descarregam as impurezas materiais e espirituais. O Ganges não só possui as qualidades purificadoras da água, como também está saturado de minerais antissépticos que matam bactérias. Pesquisas bateriológicas recentes confirmaram que os germes da cólera morrem nas águas do Ganges.”

Na margem do Ganges eu vi pessoas rezando, meditando e mergulhando enquanto rezavam e o sol, laranja e grande surgia no infinito. Vi pessoas lavando suas roupas, escovando os dentes, conversando e nadando enquanto alguns grupos entoavam cânticos em sânscrito. A presença de Deus ou de uma energia maior do que qualquer outra força no mundo emanava a cada segundo e me impressionava a crença e a fé daquele povo que mesmo em condições de miséria tinham força para continuar. Foi uma das experiências mais místicas, lindas e emocionantes da minha vida e eu levarei sempre comigo e espero sinceramente voltar e viver isso novamente.

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Desde esse dia no Ganges e depois de tantas outras situações, eu comecei a me sentir mais forte, a ter mais fé, e a acreditar mais nas leis da causa-efeito, independente de uma denominação. Estou aprendendo que nem sempre tudo sairá como eu quero, mas que as coisas realmente vão acontecer quando elas têm que acontecer e enquanto isso, eu vou fazendo a minha parte, cultivando o bem e cuidando de mim e dos meus pensamentos, que são mais fortes do que eu imaginava. Como canta Caê, “pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto”.

Volto para São Paulo com a fé de que a felicidade não está em uma cidade na Europa, numa viagem de volta ao mundo, nem muito menos no emprego dos meus sonhos ou em um apartamento incrível nos Jardins. Para mim, a felicidade está totalmente associada a fé de acreditar no poder das coisas boas e lutar para que elas aconteçam; e que eu tenha a sabedoria e a serenidade de não desanimar nem parar de acreditar quando as coisas não acontecerem como eu pensava.  E que eu continue viajando, através de livros, descobrindo lugares com um pouco de paz onde quer que eu more e dentro de mim. Afinal, A maior aventura de um ser humano é viajar, e a maior viagem que alguém pode empreender é para dentro de si mesmo. (Augusto Cury)”